Soundtrack: Dois Barcos- Los Hermanos
O Trem
O trem me atrasou quarenta e cinco minutos, o que eu vou dizer ao meu chefe sobre isso? Claro que a estação está completamente lotada o que me faz arrepiar a espinha só de pensar no cheiro que vai ficar lá dentro. Pior, em todos os braços e pernas entrelaçados procurando espaço e companhia ao mesmo tempo. Quando o trem está lotado as pessoas querem fingir que as outras não existem, mas na verdade a vontade maior é de abraçar quem está ao lado e chorar as mágoas da vida, a dor de corno, a miséria. Odeio pegar trem lotado, pois tenho de dar lugar aos idosos e as gestantes, que diabos fazem no trem na hora do rush?
As pessoas estavam impacientes, inquietas. Algumas olhavam incansavelmente as horas, outras, como esse senhor ao meu lado, acendiam cigarros com gimbas acesas ainda dos anteriores, o que me levava a fazer o mesmo. Não me importa realmente o atraso, mas sim o sufocante desespero das pessoas que iam se atrasando aos poucos. Tem um gordo que sua de tanta impaciência, andando de um lado para o outro no pequeno metro quadrado que lhe é concedido pela multidão, o que já era o contraste de três adolescentes que riam e conversam sobre futebol.
Os murmurinhos aumentam conforme o relógio corre rapidamente. Alguns olham desesperadamente como se o trem viesse por cima da estação, talvez um trem mágico com destino ao trabalho... "Olha, olha, olha...". " Vai pular!". Olho na direção onde as cabeças e os olhos teimosos da multidão me destinam. Em cima da plataforma uma mulher esta pendurada apenas pelos braços e nas pontas dos pés. O povo olha espantado enquanto murmura palavras inaudíveis, muito provavelmente de rasgada hipocrisia.
Provavelmente o motivo de todo o atraso esteja ali, pendurado na plataforma B, com vestido vermelho e descalça. Algumas pessoas também constataram isso o que as fazem balançar as cabeças de um lado para o outro, freneticamente em sinal de reprovação, soltando um ruído cínico dos lábios. A mulher está apenas com a cabeça virada ao contrário do corpo olhando o horizonte. É como se esperasse alguém querido, sinto nela uma satisfação e também uma ansiedade de estar ali, pendurada. Acho que por um instante, olhando em volta da estação, sinto que a multidão esqueceu um pouco o atraso. A mulher chamou toda a atenção para ela e para seu martírio fazendo com que a multidão se esquecesse do trabalho e dos problemas. Agora o suposto suicídio, eu digo suposto, pois nada ainda foi comprovado pelos boatos da multidão, tomou frente e diverte bem mais do que qualquer repentista de vagão.
Isso me fez sentir empatia pela lazarenta. Agora a minha vontade é de que o trem venha logo, mas não por vontade de trabalhar. Acho que agora a minha vontade, assim como a de todos os espectadores, é de que o trem de fim ao suplicio daquela mulher. Será que ela vai pular? Talvez não pule... "Olha, olha, olha...". " O Trem!". Olho em direção dos trilhos e sigo o horizonte. Ao fundo o trem se aproxima furioso. As pessoas agora dividem o olhar entre a suicida e o futuro algoz. A excitação cresce assim como os murmúrios. Guardas correm para cima e para baixo, o que me fez sentir vontade de vaiar. Não seria possível que fossem tirar ela de lá, seria? Olhando de volta para a mulher, vejo que dois caras conversam com ela a distancia, talvez com receio de que ela pule antes da hora. Agora a mulher está virada para eles, será que ela vai perder a chegada do trem?
Parou! A poucos metros da estação, o trem parou. Deve ter sido um daqueles miseráveis que avisou o maquinista. A multidão reclama mais uma vez, sinto que agora é do atraso. Todo aquele show que estava pronto e que culminaria em um final espalhafatoso não seria mais possível. Se um guarda daqueles passar por aqui de novo vai ouvir umas poucas e boas minhas. Como é que alguém pode privar a vontade de um ser humano assim? Não temos mais o livre arbítrio? Será que somos obrigados a viver?
No alto a mulher se esbraveja. Histérica, ela grita, pois não poderá ter uma morte rápida e indolor. Se ela puder ler meus pensamentos... Talvez ela ainda se jogue, com a queda, se ela calcular bem e cair batendo com a têmpora na quina dos trilhos, pode morrer, ou pelo menos causar um edema, um aneurisma ou até entrar em coma profundo. Não seria como a morte certa que ela tinha escolhido, mas pelo menos não sairia com um zero a zero.
O povo chateara-se com toda essa demora e o corre-corre de bombeiros e os guardas da estação. Aqueles garotos que falavam de futebol agora gritam pula, pula! Fiquei tentado em me juntar ao coro, mas me contive ao ver o olhar de reprovação da maioria... "Olha, olha, olha". "Ela pulou!". Enquanto os bombeiros se distraíram por alguns segundos, a pobre mulher de vestido vermelho se jogou. Merda! Eu estava acendendo um cigarro e perdi o instante em que ela havia se jogado. Os boatos dizem que ela que ela desmaiou, ou algo assim. Agora não consigo ver muita coisa, tem muita cabeça em minha frente. Na ponta dos pés eu consigo notar que não há sangue. Se não há sangue não houve morte, o que seria uma pena. Ela deve ter vindo de longe, calculado isso há vários dias, se não tiver morte vai ser um grande desperdício.
Ouço aplausos! As pessoas agora voltam os olharem para o trem que está parado do outro lado. Isso quer dizer que tiraram a mulher? Sim, tiraram a coitada. Aos poucos a multidão abre caminho à frente, como estou bem a beira da escada, ela vai passar por aqui. Alguns aplaudem, outros resmungam coisas incompreensíveis. Ao fundo eu vejo alguns homens carregando uma maca. É ela! Inconscientemente eu ajeito a gravata como se fosse encontrar alguém célebre. Os guardas que estão à frente da maca desviam a multidão com um dos braços e com o outro seguram a maca. Não posso deixar que eles passem sem me dar uma explicação. O trem se aproxima agora em a multidão grita como se um gol do Corinthians acabasse de sair. Paro no caminho da maca! Se quiserem passar vão ter de me dar uma explicação razoável para tudo isso do contrario não darei passagem. A moribunda ainda treme... Será que está morta? Devem ser espasmos pós-morte, ouvi falar sobre isso.
Ela é morena, cabelos cacheados, um corpo esbelto, bonita a coitada. É uma pena estar descalça. Frente a frente com o condutor da maca eu o encaro. Fito os olhos dele sem dizer uma só palavra. Termino o cigarro e jogo a guimba no chão, como todo bom fumante. O condutor da maca sabe o que eu quero, ele sabe que uma explicação deve ser dirigida a mim que esperei tanto por isso. Por que raios alguém sem coração como ele tirou a coitada dos trilhos? Porque não a deixaram lá para que os trens passassem por cima dela o dia todo, para que ela fizesse parte dos trilhos. Porque ela quis se matar? Por amor? Traição? Mais uma faminta pedinte de farol? Quem era ela, uma modelo aidética ou uma donzela reprimida? Sabendo de minha cede por saber o condutor agora me fitara. Ele, ainda abatido por ter se distraído e deixado a mulher cair, me cochicha ao ouvido.
Dou passagem à marcha fúnebre... O trem finalmente para na estação. A multidão se aglomera na porta e se empurra buraco adentro. Antes mesmo de botar o pé dentro do vagão, uma mulher gorda e baixinha me puxa pela camisa. Eu olho pra baixo e noto que a mulher quer me dizer algo. Ela então me olha nos olhos fazendo-me concordar com um aceno de cabeça- e diz:
"Ela desmaiou, meu caro! Ela desmaiou".
"Pois é. Uma pena mesmo".
Flo¥d postou às 12:41
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